A felicidade e o sentido da vida.

Faz-me alguma confusão ouvir pessoas dizer que o sentido da vida é a busca da felicidade. É impossível não reparar num certo nível de egocentrismo e solipsismo neste tipo de sentido dado à existência.

A busca da felicidade é um propósito centrado no indivíduo e no indivíduo apenas. Mesmo tentando promover a felicidade alheia acaba por ser solipsista pois está centrado em nós e nas nossas experiências com os outros. Além disso, tem o grande problema de ser completamente efémera e demasiado influenciável pelo meio que nos rodeia. Ou seja, podemos dar o nosso máximo para alcançar a felicidade, consegui-la, ser super felizes, e um belo dia acontece-nos uma desgraça qualquer e lá-se vai o esforço todo por água abaixo. A pior parte, é que quando vamos desta para melhor não fica rigorosamente nada.

Portanto, a felicidade não passa de um bem-estar efémero, demasiado influenciável pelo meio envolvente – não controlável pelo indivíduo – demasiado centrada apenas no indivíduo e completamente apagada com a morte.

Não. Tem que haver algo mais.

A realidade é que não sabemos como viemos aqui parar, nem porque é que viemos aqui parar. Há quem diga saber exactamente como e porque é que o ser humano existe, mas é mentira, não sabem. Ninguém sabe. E apesar de haver um “como” é que viemos aqui parar – mesmo que não o saibamos – é possível que não haja um “porquê”. Somos uma espécie que tem tendência a procurar “comos” e “porquês” nas coisas e lá porque o “como” tenha que existir – porque de facto existimos – não significa necessariamente que o “porquê” também tenha.

Logo, a conclusão é óbvia: para procurarmos o sentido da vida temos que partir do que de facto sabemos – e que podemos verificar que sabemos – evitando especulações e tiros para o ar ou razões subjectivas.

E o que sabemos é que somos animais sociais, vivemos em comunidade e todas as coisas que hoje temos, como o computador onde escrevo isto, são devidas ao conhecimento alcançado pelos que vieram antes de nós. Sabemos também que não vamos durar para sempre, nem enquanto indivíduos, nem enquanto espécie. Cerca de 95% das espécies que já habitaram a Terra estão extintas, portanto é muito provável que o nosso destino seja o mesmo. Sabemos que o Sol, enquanto estrela, tem um tempo de vida, e quando ele se for, a Terra vai também. Sabemos ainda que não há nada que indique que haja algo depois da morte e portanto o mais provável é que quando ela chegar seja, de facto, o fim.

Portanto, enquanto seres sociais e mortais, o sentido da vida tem que estar centrado no bem comum enquanto existimos, em algo que possa ser passado para a comunidade mesmo após a nossa morte, e a única forma de o fazer é procurando algo que possa dar resultados tangíveis, de forma a que possa ser passado aos que virão depois de nós e melhorar a vivência de toda a comunidade humana. Logo, o sentido da vida tem que estar focado na busca do conhecimento e no desenvolvimento da inteligência necessária para alcançar esse conhecimento, de forma a que possa ser transmitido para o resto do mundo, melhorando assim a curta vida de todos nós, mortais.

Diz um provérbio que se eu tiver uma laranja e tu outra e as trocarmos cada um de nós fica com uma laranja, mas se eu tiver uma ideia e tu outra e as trocarmos cada um de nós fica com duas ideias.

Podemos perder o que possuímos, podemos perder as pessoas que amamos, mas o conhecimento que temos, enquanto o partilharmos e o transformarmos em algo palpável, nunca será perdido.

 

 

Sobre o Inferno

Se Deus existe (o que duvido bastante) acho que um dos melhores, se não mesmo o melhor, dom que Ele deu à espécie humana foi o dom do pensamento. A inteligência, o produto da mente, o raciocínio lógico, a reflexão crítica… o pensamento.

O pensamento é a única característica da vida que não tem limites e na qual somos totalmente livres. De resto em todos os aspectos da vida há barreiras, sejam físicas, legais, sociais ou sejam lá o que sejam, elas estão lá sempre. No pensamento não. Podemos pensar no que quer que nos dê na real gana, seja na maior das atrocidades, seja na mais bela das coisas sem ninguém nos criticar ou punir por isso. É esta liberdade e criatividade intrínseca ao pensamento que o torna não só em algo tão belo como em algo único.

Esta mesma criatividade e liberdade, juntas à diversidade que caracteriza a nossa espécie, permitem que os humanos alcancem por um lado as mais brilhantes ideias, e por outro as mais péssimas e estapafúrdias, dependendo da criatura a cujo cérebro pertencem as ditas ideias.

Podemos, sem limites, parar para pensar sobre as propostas feitas pela sociedade e por aqueles que nos educam, reflectindo se de facto podem ser encaixadas na realidade, se concordamos ou elas ou se achamos morais ou completamente imorais.

Podemos reflectir sobre as propostas religiosas e chegar, apenas pelo nosso pensamento individual, à conclusão se de facto a proposta metafísica x ou y pode ou não ser verdadeira.

Primeiro que tudo há que salientar o quão imoral e incoerente é ter uma ideia de um ser criador que ao mesmo tempo nos dota de algo tão livre e criativo (o que de mais livre e criativo existe) e depois pune com a tortura eterna os subprodutos dessa mesma liberdade e criatividade, como propõem o Islamismo e o Cristianismo.

A existência de um Inferno para os não-crentes é provavelmente a proposta mais doentia de todas as propostas religiosas. A promessa de que alguém passará toda a eternidade a ser torturado num mar de chamas por usar a mesma criatividade e liberdade que – supostamente – Deus lhe deu.

Se pensarmos bem, concluiremos que a probabilidade diz que a esmagadora maioria das pessoas (crentes e não-crentes) passará a eternidade a ser torturado, pois para a salvação é necessária a crença numa específica ramificação de uma religião. Ainda há pouco Herr Ratzinger reiterou que a única forma de atingir a salvação era através do credo católico. Pegando no Cristianismo e em todas as suas ramificações, adicionadas ao Islamismo e às respectivas ramificações, é fácil perceber que a probabilidade de escolher o credo incorrecto é esmagadoramente superior à de escolher o credo correcto, já para não contar com as religiões que não promovem o castigo da alma após a morte.

A crença em si é de facto horrível. Acreditar que alguém merece ser torturado para toda a eternidade só porque não acredita na nossa religião, castigar algo tão belo e que tão bem define a existência do Ser Humano. Todos nós temos ideias diferentes, contraditórias, apoiamos essas ideias e refutamos outras, e ainda bem que assim é, senão seríamos todos uns robôs sem vontade própria, com não várias mas apenas uma ideia sobre o transcendental, não podendo passar daí sobre pena de tortura. É o chamado argumentum ad baculum, ou seja, “ou acreditas nisto ou levas!”, como se se pudesse forçar alguém a acreditar nalguma coisa! Podemos forçar alguém a dizer que acredita nessa coisa mas será que é possível força-la a acreditar, sob pena de tortura?

No entanto, o Cristianismo e o Islão dizem: “não, não! não podes ter uma ideia diferente ou o Deus que te criou e te deu livre-arbítrio fará questão de te torturar para todo o sempre!”

Isto é doentio! É uma desgraça para a espécie humana! É horrível como estas ideias são injectadas no cérebro de crianças ainda demasiado novas para perceber que isto não passam de tretas, para que fiquem o resto da vida traumatizadas com o medo do fogo do inferno!

Além disso, é algo que não tem nada a ver com os parâmetros que pretendemos para a nossa sociedade e para a sociedade futura. Onde se quer promover a igualdade, diversidade, respeito pelos outros por muito diferentes que sejam… “todos diferente, todos iguais!”

Eu, sinceramente… prefiro arriscar. Prefiro arriscar a tortura eterna a pactuar com uma crença que pune algo que tenho em tão alta consideração.

Memórias…

Para a esmagadora maioria dos ateus há na vida um momento de mudança que regra geral tem lugar quando se começa a pensar se a educação religiosa que se recebeu dos pais corresponde de facto à verdade.

Poder-se-ia ironicamente chamar uma epifania!

Pensa-se, reflecte-se, olha-se para o mundo e põe-se em causa as premissas religiosas, nomeadamente com a dificuldade em as encaixar no estado do mundo e na moralidade de certas crenças. Como observou Christopher Hitchens, normalmente uma pessoa não se torna ateia mas descobre sim que é ateia.

Destas crenças há duas que quero salientar e que quero abordar brevemente, pois eram as que me faziam uma confusão ENORME quando era criança – daí as “memórias”- até chegar à conclusão que não podiam ser verdade.

Mas chegar lá demorou…

Por estas duas razões às vezes penso que se não tivesse tido uma educação Católica não teria agora uma tomada de posição tão vincadamente ateia. As pessoas religiosas vêm-na como uma fraqueza da fé, eu vejo-a como uma capacidade de pensamento crítico e de não ter medo de pôr em causa certas crenças-base, mesmo que a eventual punição por isso seja a tortura eterna.

A primeira é a ideia do deus eterno, omnipotente e omnibenevolente, uma premissa que é completamente impossível de encaixar no actual – e passado, diga-se – estado do mundo, algo que até é indirectamente admitido pela própria teologia Católica pela irresolubilidade do chamado Problema do Mal, e que já foi brevemente abordada nos posts anteriores. Lembro-me de em criança nas notícias à hora do jantar a ver todas as desgraças e mais algumas, injustiça, fome, doença e guerra, e como era impossível haver um deus bom e todo-poderoso, ajudado por uma série de anjos da guarda pessoais a tomar conta disto, quando há tantos a viver tão bem (muitas vezes graças às mais injustas acções) enquanto uma enorme quantidade de desgraçados sem culpa nenhuma vive na mais profunda das misérias.

A segunda, e que mais confusão me fazia (e de certa forma ainda faz) é a ideia do Inferno. Não conseguia – e sublinho com toda a certeza que numa série de anos a minha tentativa de compreensão desta crença não evoluiu rigorosamente nada, portanto continuo a não conseguir – compreender como é que é possível alguém acreditar que um outro Ser Humano vai passar toda a eternidade a ser torturado só porque não concorda com ele num determinado aspecto. Como é que é possível pactuar com uma crença que diz que alguém que respeitamos e com quem nos preocupamos passará toda a pós-vida no Inferno só porque não concorda com a nossa religião, alguém que pode ser nosso amigo ou até familiar… ainda hoje me dão arrepios na espinha quando ouço a minha Avó dizer que “se não rezas vais para o Inferno”.

Citando mais uma vez Hitchens: “a religião faz uma pessoa mentalmente sã fazer e dizer coisas horríveis”, ou até o Nobel da Física, Steven Weinberg que muito bem chegou à conclusão que “sem religião teríamos o mundo a funcionar normalmente, com as pessoas boas a fazer coisas boas e as pessoas más a fazer coisas más, mas para uma pessoa boa fazer uma coisa má é preciso a religião”. Nada prova melhor isto do que a crença Cristã e Islâmica no Inferno, punindo com a tortura uma das mais belas coisas que a humanidade tem: a diversidade de pensamento.

É que a primeira crença é fácil de desmistificar: basta chegar à conclusão que tal coisa como um deus omnipotente e benevolente não existe. A segunda, é mais problemática, sobretudo do ponto de vista humano.

Concluo sublinhando que acreditar que alguém será eternamente torturado só por ter um ponto de vista diferente do nosso é uma das crenças mais imorais, desprezíveis e horríveis que alguém pode ter e só pode ter sido formulada na mente de um Ser Humano igualmente imoral e desprezível, nunca por um deus todo-poderoso.

Ainda o Problema do Mal…

Problema do Mal: round 2

Continuando uma breve aproximação ao Problema do Mal, apesar de em dois milénios de teologia ainda não se ter chegado a uma resposta concreta, podemos escrutinar as respostas que hoje estão disponíveis, se bem que não sejam satisfatórias. Aliás, a coisa mais consensual relativa ao Problema do Mal é de facto isto, a falta de uma resposta conclusiva, pois segurar filosoficamente a ideia de um Deus omnisciente, omnipotente e omnibenevolente frente ao conhecimento adquirido do mundo e da interacção humana não é propriamente tarefa fácil.

Duas das respostas mais recorrentes são: (a) o mal existente é fruto da acção humana, do livre-arbítrio dado por Deus, surgindo também como castigo pelo pecado, e (b) Deus tem um plano superior, algo em mente que não pode ser compreendido pela mente humana, ou “Deus escreve direito por linhas tortas” na linguagem popular .

Começando por responder ao argumento (a), bem há várias contra-respostas e contra-argumentos que podem imediatamente ser levantados. Primeiro, o Ser Humano é criado à imagem e semelhança de Deus, o que quer dá a entender que se distribuímos violência gratuitamente, provavelmente Deus também o fará, o que entra em contradição com a ideia de Deus omnibenevolente. Além disso, o livre-arbítrio proposto pelas religiões abraâmicas, nomeadamente o Cristianismo e o Islão que promovem a ideia do castigo dos mortos, é limitadíssimo, dado que há castigos metafísicos (e em alguns casos de países teocráticos, físicos) pesadíssimos, nomeadamente o Inferno, prometido como castigo para os transgressores. Que livre-arbítrio é este, que nos diz que somos livres para escolher mas se não fizermos a escolha pretendida seremos castigados para toda a eternidade? Deus é muitas vezes visto como uma figura paterna… imaginemos por esse motivo a hipotética situação: um pai sai para o trabalho e diz ao filho “olha, em cima da mesa estão os bolinhos que a mãe acabou de fazer, não os deves comer porque são para os convidados mas podes escolher fazê-lo se quiseres, no entanto, se escolheres comê-los quando chegar a casa eu enfio-te na banheira cheia de água a ferver!” Isto é livre-arbítrio!? Completando isto ainda com a ideia Calvinista de predestinação, de que Deus tem já um futuro traçado para nós, apoiada na premissa da omnisciência, só podemos conclui que assim sendo o livre-arbítrio praticamente não existe e o mal de origem humana acontece pela expressa vontade de Deus, o que entra em conflito com a ideia de omnibenevolência. Depois temos a ideia que já foi desenvolvida no post anterior, da natureza criada por Deus e cujos desastres naturais são muitas vezes apontados como castigos pelo pecado mas a óbvia constatação de que afectam tanto o justo como o pecador destrói completamente este argumento. Há até uma frase apócrifa atribuída a Sócrates onde ele pergunta a um camponês se nunca tinha reparado que os trovões de Zeus atingiam tanto as pessoas boas como as más.

Passando ao argumento (b), primeiro que tudo há que apontar o quão é falacioso e evasivo fundamentar um argumento na ideia de que “isso é algo que não pode ser compreendido pela mente humana, ponto final parágrafo.” Depois, ao longo de toda a história da humanidade há sequer algo que possamos salientar que nos indique que isto é verdade? Em 2000 anos de Cristianismo existe sequer uma prova na qual possamos pegar e dizer “bem, isto de facto indica que talvez possa haver um plano superior para a catástrofe a ou b“? Além disso, e mais importante do que isso, Deus é supostamente omnipotente e omnibenevolente, não é? O que quer dizer que fosse o que fosse que ele quisesse fazer, conseguiria fazê-lo sem precisar de matar todos os dias crianças à fome, à sede, ou por não terem acesso a um medicamento qualquer que na Europa ou nos EUA tem o custo de pouco mais de um euro.

Uma pergunta sem resposta

Costuma-se dizer que não há perguntas estúpidas nem respostas estúpidas, só gente estúpida. Virando isto ao contrário, pode-se dizer também que não há perguntas inteligentes nem respostas inteligentes, só gente inteligente.

Há uns bons 2400 anos atrás um tipo inteligente chamado Epicuro lembrou-se de uma pergunta na forma de um enigma:

“Deus quer acabar com o mal mas não é capaz?
Então não é omnipotente.
É capaz mas não o quer fazer?
Então é malévolo.
É capaz e quer fazê-lo?
Então de onde surge o mal?
Não é capaz nem quer fazê-lo?
Então porquê chamar-lhe Deus?”

Isto é hoje entendido como o chamado Problema do Mal e, como foi observado pelo poeta inglês Percy Bysshe Shelley no início do séc. XIX, continua sem resposta. Note-se que este enigma é cerca de 400 anos mais velho que o Cristianismo e ainda hoje representa um enorme buraco não só na filosofia desta religião como na das chamadas religiões Abraâmicas.

Claro que este enigma foi evoluindo ao longo dos milénios, mas hoje a base continua igual. A pergunta é: Deus é infinitamente bondoso, omnisciente e omnipotente, criador de todas as coisas, nomeadamente do homem, criado à sua imagem e semelhança e centro de toda a criação, e em cuja vida Deus participa activamente (salvou Israel do Egipto, acabou com a Torre de Babel, provocou o dilúvio, etc, etc…)

Esta filosofia levanta um problema, o já referido Problema do Mal. Então se assim é, de onde vem todo o mal que existe na Terra? Se Deus é o autor de toda a criação e esta é concebida com o Ser Humano em vista, então Deus também é o criador da malária, da peste negra, da SIDA e da natureza com os seus desastres naturais e que como é óbvio afectam tanto o justo como o pecador. E isto já para não entrar na questão do sofrimento infligido por humanos a outros humanos, ao que sempre se poderia responder com o argumento do livre-arbítrio mas não nos podemos esquecer que supostamente o Ser Humano é criado à imagem de Deus e conta a experiência que os sucessores tendem a ser influenciados pelos predecessores e nunca o contrário o que nos permite depreender que se o Ser Humano é criado à imagem de Deus e que como não há outra espécie tão exímia a infligir sofrimento como o Ser Humano então portanto Deus será algo muito parecido – no que toca à “distribuição” de sofrimento – ao próprio Ser Humano.

Muito ironicamente esta segunda asserção, apesar de como é óbvio não agradar à maioria dos teístas, já se coaduna muito melhor com a realidade. A ideia de um Deus infinitamente bom, omnisciente, omnipotente e activo não se encaixa com o estado do mundo, partindo do princípio que uma entidade boa fará tudo ao seu alcance para evitar o mal e como Deus é omnipotente e omnisciente não há limites para o que Ele pode fazer para acabar com o mal. Sobretudo se muito desse mal é feito em Seu nome. No entanto, se pensarmos ao contrário e que de facto o Ser Humano é criado à imagem de Deus e que o Ser Humano é completamente aleatório na distribuição de sofrimento, torturando, violando, matando por dinheiro, por amor, por prazer, por que sim quem quer que lhe apetece e lhe dá na real gana desde o pior assassino à mais inocente criança, constatamos – muito curiosamente - que esta ideia já se encaixa muito melhor no actual estado do mundo.

Claro que a isto sempre se pode responder: “e então e o bem que os humanos fazem? e o altruísmo?  não conta?” Claro que conta. Mas não nos podemos esquecer de uma coisa, do mais importante neste argumento, que é aquilo que o Ser Humano não controla: a Natureza. Durante séculos e séculos que pessoas morriam indiscriminadamente, quer o justo, quer o pecador, devido a desastres naturais, a dar à luz, a vírus, a bactérias, atacados por animais e devido a todo um outro conjunto enorme de motivos – a maior parte deles nem eram compreendidos – que à luz do pensamento teísta são criados por Deus que tinha o Ser Humano em vista aquando da criação.

Então, se Deus, criador de todas as coisas, governa tudo e todos e se o sofrimento causado por razões alheias ao ser humano é aplicado de uma forma completamente aleatória e se o homem é criado à imagem de Deus e também o aplica aleatoriamente isso só nos permite chegar a uma conclusão: Deus – caso exista – é mau!

Acho que todos concordamos que quem inflige sofrimento aleatoriamente é mau, não é?

Porque é que a resposta Deus não é válida.

Apenas um pequeno texto a explicar porque é que a resposta Deus não é válida para a origem de tudo, dado que é muita vez (mesmo muita!) levantada como tal.

Hoje em dia a ciência continua à procura da resposta para a origem da vida e sobretudo do Universo e cada vez que se pergunta “Qual é a primeira causa para a origem de tudo?” só há uma resposta a dar:

Não sabemos.

Hoje já há provas sólidas que o Big Bang aconteceu mas ainda não se consegue explicar porque é que aconteceu.

Levantar Deus como resposta não serve porque: (a) ninguém consegue provar que Deus existe, e (b) mesmo que – hipoteticamente falando – se conseguisse ainda se tinha de explicar de onde é que Deus veio e portanto dizer “foi Deus e Ele é eterno” não serve rigorosamente para nada porque além de não se conseguir provar não é nada mais que um facilitista ponto final na questão.

Além disso, não nos podemos esquecer que a resposta à pergunta mais importante de sempre tem – precisamente por isso – que ser válida para todo o mundo, não apenas para Cristãos ou Muçulmanos ou Judeus ou qualquer outra religião.

E a única forma de o fazer é encontrar provas verificáveis e testáveis.

O que é o agnosticismo?

A posição agnóstica é hoje conhecida geralmente como um meio termo entre o teísmo e o ateísmo, uma posição não conflituosa que não toma partido de nenhumas as partes. Neutra… como a Suíça ou Portugal.

É cada vez uma resposta mais frequente à pergunta “acreditas em Deus?”, como uma forma de não abraçar nenhuma das causas que cada vez mais têm vindo a entrar em conflito uma com a outra com o crescimento do Ateísmo, fruto da maior – mas ainda não total – liberdade de expressão e de pensamento que surge sobre o mundo culturalmente mais avançado.

Bem, não só o agnosticismo (como muita gente hoje o entende) é uma posição praticamente impossível de “segurar”, como muitas das próprias pessoas que a apoiam e que se dizem agnósticas não fazem a mínima ideia do que significa ser agnóstico.

A expressão foi inicialmente cunhada por Thomas Huxley, conhecido como o Bulldog de Darwin pela maneira como defendeu a Teoria da Evolução, para se referir à impossibilidade de chegar a uma resposta conclusiva. Portanto a agnose, “ausência de conhecimento”, significa pura e simplesmente a tomada de uma posição que não acredita na possibilidade de se provar a existência ou não de Deus. Ou seja, podes ser agnóstico, mas não podes ser só agnóstico. Se te dizes agnóstico apenas estás a dizer que achas que é impossível provar a existência de Deus. Não dizes completamente nada sobre a tua crença Nele. Um gnóstico, por outro lado, poderá ser ateu gnóstico (gnose, portanto presença de conhecimento), alguém que não acredita em Deus e acha que é possível prová-lo, enquanto que um teísta gnóstico acreditará na existência de Deus e na possibilidade de a provar.

Com o passar dos anos, o termo começou a ser progressivamente utilizado pelas pessoas que não queriam abraçar nenhuma das causas, sendo hoje conhecido como um meio termo. Um “não sabe/não responde”.

Meio termo.

É mesmo possível ter um meio termo numa crença? Será que se pode dizer “Não sei se acredito em OVNIs”? Porque um crença, sobretudo em Deus, é afirmada. E se se diz que não se sabe é porque não se acredita, porque se acreditasse saberia.

Pensemos um pouco sobre o significado da palavra ateu, de a theos ou ausência de Deus. Tal como outras palavras com este sufixo, ateu vem de não acreditar na existência em Deus, tal como a agnose é não acreditar na possibilidade da prova da sua existência ou não. Não é, como muita gente pensa, acreditar que Deus não existe, é sim, não acreditar na sua existência, tal como o prefixo “a” sugere.

E portanto um “agnóstico” quando diz “Eu não sei, não tomo uma posição. Não afirmo a sua existência nem o contrário” significa que não acredita, porque se acreditasse diria “Eu sei, sim! E eu acredito!”

E se não acredita… é ateu.

Finanças à portuguesa…

Chegou a altura de deixar um pouco de estar sempre a bater na mesma tecla e virar por um momento as nossas atenções para outro assunto… o sistema português. O belo sistema onde uma boa cunha pesa mais para arranjar um trabalho do que a média final da faculdade junta com a experiência profissional. A bela da cunhocracia que premeia quem trabalha menos e pune que trabalha mais, oferecendo vantagens aos trabalhadores que produzem menos e desvantagens aos que produzem mais.

Parece antagónico? Pois, mas é a realidade.

Vamos pegar num caso prático:

Supomos que durante um determinado ano o belo do trabalhador-com-futuro-mais-que-assegurado que é o recibo verde até trabalhou um bocado, portanto contribuiu mais para o avanço do país e descontou mais para os cofres do Estado, chega a Dezembro, vai às Finanças, e dizem-lhe algo do género:

«PARABÉNS PÁ!!! Você trabalhou o suficiente para ultrapassar 10 000€ por ano, portanto… para ver que de facto o trabalho árduo compensa e para se sentir com vontade de continuar, vai ser recompensado! Como prémio pelo seu esforço, não só passará agora a ser obrigado a cobrar mais 23% de IVA a todas as pessoas que lhe contratam serviços – e portanto  ficando em desvantagem em relação à concorrência que não trabalhou tanto e não é obrigada a fazê-lo – como será ainda obrigado a descontar 21,5% de IRS de todos os seus ganhos! Hã!!!???? Colher os frutos do trabalho sabe ou não sabe bem?? Porreiro pá!!»

Por outro lado, se um mesmo trabalhador-com-futuro-mais-que-assegurado não trabalhou assim tanto, portanto não contribuiu tanto para o avanço do Estado e do país, e não chegou aos 10 000€/ano, se desloca às Finanças no final do ano, dizem-lhe:

«Ena pá! Você não atingiu o limite mínimo para ser premiado! Portanto, para ver se para o ano consegue, continuará isento de cobrar IVA e pagar IRS para ver se se sente com maior vontade de trabalhar para o ano lhe sair o prémio na rifa! Vá, vá-se lá embora e veja se trabalha mais…»

É suposto isto motivar o Zé Povinho a trabalhar? Sabendo que quem trabalha menos sai mais beneficiado que quem trabalha mais? É isto um sistema justo? Não é suposto serem o trabalho e o dinheiro dos impostos que fazem o país andar para a frente? Então porque é que se beneficia quem trabalha menos e prejudica quem trabalha mais? Boa pergunta, não é? Eu ainda não percebi…

“Nenhum país jamais atingirá o progresso cobrando ao seu povo impostos superiores à sua capacidade de os pagar.” – Margaret Tatcher

“Porreiro pá!” - José Sócrates


Holy Shit

“Holy Shit”. “Oh my God”. Provavelmente as exclamações mais ditas durante os ataques do 11 de Setembro. Não se poderiam encaixar melhor no acontecimento. Nenhumas outras expressões o poderiam descrever melhor. Holy Shit é de facto a definição mais adequada para aquilo com que o Islão tem presenteado o mundo nos últimos tempos.

Uma cultura que já foi tão grande, conhecida por grandes feitos que ajudaram todo o mundo, pela agricultura, matemática, astrologia, arte… hoje, as vezes que aparece mais vezes nas notícias é quando um fanático qualquer decide que não gosta da maneira como as pessoas vivem num determinado lugar, então, amarra uma data de explosivos à cintura e faz-se explodir no meio de uma multidão de inocentes achando que isso lhe reservará um cantinho especial do Paraíso com uma horda de virgens para o receber.

Não me digam que não há qualquer coisa de errado com esta religião. Nos tempos que correm este comportamento é único do Islão. O Judeus sofreram o que sofreram durante o século XX mas no entanto nunca nenhum judeu se fez explodir no meio de um grupo de alemães. O Tibete sofreu o que sofreu com os chineses, mas nunca nenhum monge taoísta cometeu o martírio no meio de chineses. Há poucos anos houve um acontecimento muito badalado, quando uns fanáticos islâmicos fizeram explodir umas estátuas únicas de Buda mas no entanto não se viram reacções violentas da comunidade budistas. Viremos o caso ao contrário, quando há pouco tempo um fanático cristão norte-americano se lembrou  de queimar um Corão, o resultado foi a morte de cerca de 10 pessoas inocentes às mãos dos muçulmanos.

Não é um problema de pobreza, pois também há outra comunidades religiosas a viver na pobreza. Social, há muçulmanos em vários tipos diferentes de sociedade a fazer isto. Instrução? Muitos dos terroristas do 11/Set tinham PhD’s. De opressão? Como vimos anteriormente, há mais comunidades religiosas oprimidas e não respondem matando inocentes. Conclusão: O motivo só pode ser o ponto comum em todos estes atentados terroristas, a mesma religião. O Islão. E negar isto é encaixar-se naquela ínfima percentagem de cegos que não vê porque não quer ver.

Qual o problema do Islão? Pensemos… primeiro afirma-se como a última e inalterável palavra de Deus, portanto não está aberta a interpretações, depois, é uma religião que ainda aprendeu muito pouco consigo própria. Pensando que Maomé morreu no século VII, significa que neste momento o Islão está mais ou menos no mesmo estágio de desenvolvimento que o Cristianismo estava no século XIV ou XV… e toda a gente sabe como era nessa altura.

David Hume e a Navalha de Occam.

Astros que revelam modificações na nossa vida pessoal. Estátuas que choram. Fantasmas.  Espiritismo. Pessoas raptadas por OVNIs. Monstros do Loch Ness. Estigmas. E outros que tais…

Tudo grandes suposições que até hoje ninguém consegui provar que fossem verdade, e tudo suposições que uma frase de David Hume assim como a navalha de Occam descartam sem qualquer esforço. Isto sobretudo no que toca à astrologia, por ser a que mais comummente é aceite.

Não posso deixar de reparar no desplante de muita gente (leia-se falta de visão), criticando e olhando de lado com ar de gozo para as pessoas que se dizem raptados por extraterrestres como se fossem maluquinhos mas no entanto enquanto o fazem estão a beber café e a ler a sua respectiva coluna de astrologia para o dia corrente.

Do tipo: “Aquele gajo não joga mesmo com o baralho todo! Diz que foi raptado por ETs! Agora espera aí um bocado enquanto eu vejo se a lua de Capricórnio me diz se devo ser contabilista ou ir para a tropa!”

Todas estas afirmações são como réus em julgamento. Inocente até ser provado culpado. Falsas até serem provadas verdadeiras.

Já referi várias vezes neste blog a lógica de David Hume: “O que é que é mais provável? A pessoa em causa recebeu mesmo por milagre os estigmas de Cristo ou falsificou-os?” A Navalha de Occam diz que não devemos multiplicar as entidades para além do necessário, portanto, basta-nos uma única entidade para a explicação – a pessoa que recebeu os estigmas foi a mesma que os fez -  em vez de duas – a pessoa recebeu-os e Deus é que os impôs. Até o motivo entra aqui: a pessoa fez isto por necessidade de atenção e protagonismo ou Deus tem um plano misterioso para aquele ser em questão? O que é que é mais provável? O que é que encaixa melhor na experiência de vida que temos sobre a natureza humana?

Além disso, estamos a falar de acontecimentos que já se provou em vários casos que se tratavam de falsificações, quer nos milagres, quer na astrologia, quer no espiritismo. O contrário, nunca foi provado. Logo, fique-se pela explicação que já se soube por várias vezes ser a correcta em vez de se entrar pelos campos do nunca provado.

É sabido por todos nós que a ciência não tem resposta para todos os acontecimentos que observáveis pela experiência humana. Ainda temos muito que aprender. No entanto, (a) lá porque a ciência não o consegue explicar não quer dizer que tenha origem divina ou sobrenatural, (b) lá porque não se consegue explicar hoje não significa que não se consiga no futuro.

A lógica muitas vezes aplicada pelos crentes e apoiantes destas ideias é uma lógica completamente errada. Tipo “a ciência não consegue explicar logo foi Deus, foram fantasmas, foram OVNIs, foi o coelhinho da Páscoa…” Isto é erradíssimo. Isto é mais que errado. Isto é, como se diz no vernáculo da comunidade científica “uma hipótese que nem sequer errada está”. Porque não tem lógica nenhuma.

Primeiro têm que provar que as entidades a que imputam os acontecimentos existem. Depois então podem provar – ou melhor, especular – que foi por sua causa que um determinado acontecimento teve lugar. Não o contrário. E lembrem-se que estamos a falar de – supostamente – entidades com vontade própria.

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